Receitas Públicas (1)_A Respiração Financeira do Estado – Aos alunos de Finanças Públicas – Universidade Lusófona do Porto

O presente capítulo é dedicado aos alunos e alunas da Universidade Lusófona do Porto, da disciplina de Finanças Públicas, turma 3, ano letivo 2025/26. 

  1. O Estado como organismo vivo

Imaginemos o Estado como um organismo vivo. Não um gigante abstrato, mas um corpo real, com órgãos, funções, necessidades e limites. Tal como qualquer ser vivo, o Estado respira, alimenta‑se, cresce, adoece, recupera, adapta‑se. E, tal como qualquer organismo, precisa de energia para sobreviver. Essa energia – esse oxigénio vital – chama‑se receita pública.

Quando falamos de receitas públicas, não falamos apenas de números, tabelas ou rubricas orçamentais. Falamos da forma como uma comunidade inteira decide financiar a sua própria existência. Falamos da maneira como um país escolhe pagar a educação das suas crianças, a saúde dos seus idosos, a segurança das suas ruas, a justiça dos seus tribunais, a dignidade dos seus trabalhadores, a proteção dos seus vulneráveis.

A receita pública é, por isso, um espelho. Um espelho que reflete quem somos enquanto sociedade, o que valorizamos, o que priorizamos, o que estamos dispostos a financiar – e o que preferimos ignorar.

  1. A longa marcha até ao Estado moderno

A história das receitas públicas é inseparável da história do próprio Estado. Durante séculos, os reis cobravam tributos como quem recolhe favores: ora exigiam, ora perdoavam, ora aumentavam, ora distribuíam privilégios. A tributação era arbitrária, desigual, frequentemente violenta. Não havia orçamento, não havia contas públicas, não havia escrutínio.

O Estado moderno nasce quando a sociedade exige previsibilidade, racionalidade e justiça. A Revolução Francesa, com a sua famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, proclama que “todos os cidadãos têm o direito de verificar, por si ou pelos seus representantes, a necessidade da contribuição pública”. É o nascimento da tributação moderna: a receita pública deixa de ser um capricho do soberano e passa a ser um dever do cidadão e um direito da comunidade.

Em Portugal, o caminho foi semelhante. Do absolutismo régio à monarquia constitucional, da Primeira República ao Estado Novo, e finalmente à democracia pós‑25 de Abril, cada regime deixou marcas na forma como o Estado se financia. A Constituição de 1976, pela primeira vez, consagra um sistema fiscal baseado na capacidade contributiva, na igualdade e na justiça.

  1. A atividade financeira: o palco onde tudo acontece

A atividade financeira do Estado é o palco onde se desenrola a peça central da governação. É nela que se decide:

– quanto se arrecada;

– quanto se gasta;

– como se distribui;

– quem paga;

– quem beneficia;

– quem fiscaliza;

– quem responde.

É uma atividade profundamente política, profundamente económica e profundamente social. Não há neutralidade possível. Cada imposto é uma escolha. Cada isenção é uma decisão. Cada taxa é uma opção. Cada empréstimo é uma aposta.

E é por isso que as receitas públicas são tão importantes: elas revelam o que o Estado quer ser.

  1. A receita pública como contrato social

A receita pública é, no fundo, um contrato. Um contrato implícito entre o Estado e os cidadãos. O Estado diz: “Eu protejo‑te, educo‑te, curo‑te, defendo‑te, regulo‑te, garanto‑te direitos”.

E o cidadão responde: “Eu contribuo para que isso seja possível”.

Este contrato não é apenas jurídico. É moral. É político. É civilizacional.

Quando um cidadão paga IRS, ou qualquer outro imposto, não está apenas a cumprir uma obrigação legal. Está a participar na construção de uma sociedade. Está a financiar a escola onde estudam crianças que nunca conhecerá. Está a pagar o hospital onde será tratado alguém que nunca verá. Está a sustentar o tribunal que julgará um caso que nunca ouvirá.

A receita pública é, por isso, um ato de solidariedade invisível.

  1. O que distingue a receita pública da receita privada

A receita privada nasce da troca. A receita pública nasce da autoridade.

A receita privada é voluntária. A receita pública é obrigatória.

A receita privada visa o lucro. A receita pública visa o bem comum.

Mas há algo mais profundo: a receita pública é a única receita que permite financiar bens que o mercado nunca financiaria.

Nenhuma empresa privada constrói um farol para orientar navios.

Nenhuma empresa privada mantém um tribunal para resolver conflitos.

Nenhuma empresa privada garante a defesa nacional.

Nenhuma empresa privada assegura a proteção civil.

A receita pública financia aquilo que é de todos e para todos.

  1. A receita pública como instrumento de poder

Quem controla a receita controla o Estado.

Quem controla o Estado controla a sociedade.

Quem controla a sociedade controla o futuro.

É por isso que a receita pública é tão disputada, tão debatida, tão politizada. É por isso que os impostos são tema de campanha eleitoral, de debate parlamentar, de protesto social. A receita pública é poder. E o poder, como sabemos, nunca é neutro.

  1. A receita pública como indicador de maturidade democrática

Há países onde a receita pública é baixa porque o Estado é fraco.

Há países onde a receita pública é baixa porque a economia é informal.

Há países onde a receita pública é baixa porque a corrupção é alta.

Há países onde a receita pública é baixa porque a desigualdade é extrema.

E há países onde a receita pública é alta porque a sociedade decidiu investir em si própria.

A receita pública é, por isso, um indicador de maturidade democrática.

Um país que financia a sua educação, a sua saúde, a sua justiça e a sua proteção social é um país que acredita no futuro.

  1. Quadro demonstrativo da evolução histórica da receita pública

Período                                                       Características                    Tipo de receita predominante

Absolutismo Tributação arbitrária, privilégios, isenções pessoais Tributos diretos e indiretos sem sistema
Liberalismo Estado mínimo, impostos simples Impostos diretos básicos
Estado Social Expansão das funções públicas Impostos progressivos e contribuições sociais
Neoliberalismo Consolidação orçamental, privatizações Impostos indiretos e receitas patrimoniais
Século XXI Globalização, digitalização, descentralização IVA, IRS, IMI, fundos europeus
  1. Caso real – A crise financeira de 2011 e o impacto nas receitas

Em 2011, Portugal enfrentou uma das maiores crises financeiras da sua história recente. O Programa de Ajustamento Económico e Financeiro, designado de forma abreviada PAEF impôs medidas duríssimas:

– aumento de impostos;

– redução de salários;

– cortes na despesa;

– reavaliação de imóveis para aumentar o IMI;

– redução de isenções fiscais.

As receitas públicas tornaram-se o centro da estratégia de recuperação. O Estado teve de aumentar a carga fiscal para evitar a falência. E os municípios viram as suas receitas cair abruptamente, sobretudo no IMT. Este episódio mostra como a receita pública é sensível ao ciclo económico – e como pode ser usada como instrumento de estabilização.

  1. Conclusão do Capítulo

A receita pública é muito mais do que um conceito técnico. É uma narrativa histórica, política, económica e social. É o fio que liga o Estado aos cidadãos, o passado ao futuro, a teoria à prática. E é por isso que merece ser estudada com profundidade, com detalhe, com rigor – e com humanidade.

NOTA FINAL: A matéria das receitas públicas é subdividida em sete capítulos, correspondendo cada um a uma publicação. No final de cada publicação é feita a referência aos restantes links correlacionados. De seguida, procedemos à identificação da matéria integral.

Assim:

CAPÍTULOS

CAPÍTULO 1 – A RESPIRAÇÃO FINANCEIRA DO ESTADO (Presente capítulo)

CAPÍTULO 2 – AS GRANDES CLASSIFICAÇÕES DAS RECEITAS PÚBLICAS

CAPÍTULO 3 – O SISTEMA FISCAL PORTUGUÊS COMO ARQUITETURA DE PODER

CAPÍTULO IV – AS RECEITAS MUNICIPAIS E A AUTONOMIA LOCAL

CAPÍTULO V – AS FUNÇÕES FINANCEIRAS DO ESTADO

CAPÍTULO VI – A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DAS RECEITAS PÚBLICAS EM PORTUGAL

CAPÍTULO VII – O FUTURO DAS RECEITAS PÚBLICAS: DIGITALIZAÇÃO, INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E NOVOS IMPOSTOS PARA UM NOVO MUNDO

 

Sobre António Maria Barbosa Soares da Rocha

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