Karate Goju-Ryu – Múrcia.2026

Múrcia, julho de 2026🥋, dia que integra mais um acontecimento marcante na nossa vida.


De 1 a 5 de julho tivemos a honra de participar, em Múrcia, no Estágio Internacional de Goju-Ryu, realizado em homenagem ao saudoso Sensei Onaga.
Regressamos com a convicção reforçada de que há experiências cujo verdadeiro significado apenas se revela depois de terminado o treino. Porque existem encontros que nos acrescentam conhecimento e outros que nos recordam a natureza da responsabilidade que assumimos quando escolhemos percorrer o Karate-do.
Vivemos numa época marcada pela velocidade, pela exposição e pela valorização do resultado imediato. Também as artes marciais não ficaram imunes a essa lógica. Multiplicam-se graduações, competições, certificações e distinções. Tudo isso pode ter o seu lugar. Nenhum desses elementos, porém, constitui a essência do Karate.

A tradição okinawana nunca compreendeu o Karate apenas como um sistema de combate. Fê-lo nascer da necessidade de proteger a vida, mas permitiu-lhe evoluir para algo incomparavelmente mais exigente: uma disciplina de aperfeiçoamento humano. Chōjun Miyagi compreendeu que a eficácia técnica representa apenas uma condição necessária da prática; nunca a sua finalidade. A técnica encontra a sua legitimidade quando deixa de servir a afirmação do ego para passar a servir a formação do caráter. Esta distinção parece-nos hoje mais atual do que nunca.
Treinar não significa acumular movimentos, nem aperfeiçoar respostas automáticas. Significa educar a atenção, disciplinar a vontade e desenvolver uma consciência capaz de distinguir a força da violência, a autoridade da imposição, a determinação da obstinação. Cada técnica transporta consigo uma dimensão ética, porque toda a ação humana possui inevitavelmente uma dimensão moral.
É precisamente por isso que um kata não constitui apenas uma sequência codificada de movimentos. Nele condensam-se princípios técnicos, estratégicos e pedagógicos cuja transmissão exige muito mais do que repetição. Exige compreensão. A forma preserva o conhecimento; é o entendimento que lhe confere vida. Sem esse entendimento, resta apenas a aparência da tradição.
Talvez por isso os antigos Mestres nunca atribuíssem especial importância à originalidade. Sabiam que inovar sem compreender conduz inevitavelmente à perda da identidade. Mas sabiam igualmente que repetir sem compreender conduz ao mesmo resultado. Entre o dogmatismo e a improvisação existe um caminho mais difícil: estudar profundamente para permanecer fiel ao espírito, sem transformar a tradição numa peça de museu – Foi essa fidelidade que encontramos em Múrcia.
Ao lado do Sensei Fujioka e de praticantes provenientes de diferentes países, tornou-se evidente que aquilo que verdadeiramente nos une não é a perfeição técnica, nem a pertença institucional, nem sequer a língua que falamos. O que nos une é uma compreensão comum de que o Karate-do constitui uma responsabilidade partilhada.
Na cultura japonesa, a transmissão nunca foi entendida como um simples ato de ensino. Constitui um compromisso moral entre gerações. Recebemos um património que não criámos e que, por isso mesmo, não temos o direito de adulterar. Compete-nos estudá-lo com rigor, vivê-lo com honestidade e transmiti-lo com integridade. Cada geração acrescenta inevitavelmente a sua experiência; nenhuma possui legitimidade para romper arbitrariamente a continuidade que recebeu. É neste contexto que uma homenagem a um Mestre adquire o seu verdadeiro significado.
Recordar um Mestre não consiste em celebrar a sua biografia. Consiste em interrogar a nossa própria conduta. A questão fundamental nunca é aquilo que o Mestre fez, mas aquilo que nós fazemos com aquilo que dele recebemos. O legado não vive na memória; vive na responsabilidade.
Os Mestres sabem que a sua obra não se mede pelo número de alunos, pelas graduações atribuídas ou pelo prestígio alcançado. Mede-se pela capacidade de formar pessoas cuja conduta permaneça fiel aos princípios que receberam, mesmo quando já ninguém as observa. É nesse momento que o ensino deixa de depender  da presença do Mestre para passar a existir na consciência do discípulo. – Talvez seja essa a mais elevada expressão do Karate-do. Não formar praticantes tecnicamente irrepreensíveis, mas seres humanos que compreendam que a verdadeira força nasce do domínio de si próprios; que a autoridade só encontra legitimidade na humildade; que o conhecimento apenas adquire valor quando se transforma em serviço; e que a tradição apenas permanece viva quando é continuamente reencontrada na prática quotidiana.
Por isso, ao regressar de Múrcia, não levamos apenas a memória de excelentes treinos ou de reencontros inesquecíveis. Levamos, acima de tudo, uma renovada consciência da responsabilidade que acompanha todos aqueles que tiveram o privilégio de receber um legado construído por sucessivas gerações de Mestres.
Porque uma tradição não sobrevive pela grandeza daqueles que a fundaram.
Sobrevive pela integridade daqueles que, em cada geração, escolhem vivê-la.

Sobre António Maria Barbosa Soares da Rocha

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